Dá uma saudade do passado. Apesar de eu não acreditar muito nisso de ficar olhando pra trás. Deve ser a tal da "idade", que finalmente chegou. A gente fica meio nostálgico mesmo. Mas dá saudade dos companheiros de elenco, por exemplo, que já não estão mais no espetáculo: Giulia Nadruz, Guilherme Magon, Cleo Caetano, Léo Diniz, Carol Costa. Cada um deles deixou sua marca e contribuiu pra história de um que espetáculo que faz parte de um teatro histórico.
Já vi muitos espetáculos que não duraram nem 100 apresentações. Já participei de alguns, inclusive. Nada demais com relação à isso. Nossa realidade é difícil mesmo. Mas, ok. A realidade de muitos, fora do teatro também é difícil. Funciona assim: se o público ama, o espetáculo fica. Essa é a regra geral.
Mas... às vezes... dependendo do teatro... o espetáculo tem que encerrar mesmo assim porque já existe uma programação que tem que ser cumprida. Foi o caso de Hairspray, que se despediu com casa lotada e uma temporada lotada também. Pelo menos nas "fofocas de bastidores". Uma fofoca muito boa, diga-se de passagem.
Eu gosto muito dos espetáculos que fazem sucesso! Me garantem um ano com uma vida confortável e a alegria de adicionar ao currículo que fiz parte de alguma coisa que todo mundo conhece. Eu gosto ainda mais de espetáculos que fazem sucesso e são uma delícia de fazer, embora quase nenhum espetáculo seja "ruim" de fazer: no máximo, minha maior queixa é a queixa de todos os brasileiros com relação ao trabalho: trânsito, cansaço, uma certa preguicinha de entrar naquela adorável "caixa preta" num dia de sol de Domingo. Mas mesmo assim, amo o que faço. Não digo com hipocrisia, não. Pra fazer bonito e as pessoas me acharem um cara legal. Amo de verdade. Vivo momentos de glória ali. Aplausos, show com músicas em inglês no final do espetáculo, músicas em português (nas versões do também histórico Cláudio Botelho), uso uma roupa amarela cheia de brilhantes e com salto plataforma, faço fisio. com as meninas queridas que cuidam da saúde de nossos ossos, músculos e tendões, brinco com minha querida Judite, camareira que mais parece uma substituta de mãe (aliás, ando preocupado com ela porque anda com umas dores no joelho que dificultam suas subidas e descidas nas escadas pras trocas de figurino), brinco com todas as camareiras reunidas na sala de costura, com o segurança de aperto de mão de quebrar os ossos, com as meninas ali do lobby, Beth, Carla, que realizou um sonho de trabalhar no teatro, quando antes era mais uma das que só iam admirar os espetáculos, encantada, com o pessoal do café, bilheteria... Como não amar isso?
Aliás, esse bom humor é fundamental. Não que eu seja uma pessoa superficial e não leve nada a sério. Já tive algumas belas brigas com minha eterna colega de cena, Kiara, por conta de coisas como essa. Mas sempre nos entendemos. Às vezes ela tem razão, às vezes eu tenho razão. Não é uma competição. Jogamos juntos. Eu, ela e todos os que mais ou menos citei. Mas, jogar junto também é brigar, é ter preguiça, é reclamar de sessões extras num Domingo às dez da manhã. E tudo isso sabe pra que? Pra quando a cortina cair pela última vez, como já foi em Les Miserábles, A Bela e a Fera, Chicago, O Fantasma da Ópera, Miss Saigon, Cats e agora Mamma Mia, a gente se olhar ali no teatro, com os olhos cheios de lágrimas, e se perguntar quando será que teremos o prazer de trabalharmos novamente juntos.