sexta-feira, 9 de março de 2012

Made In Brazil


Quando O beijo da mulher aranha desembarcou no Brasil há 10 anos, Claudia Raia, Tuca Andrada e Miguel Falabella nem imaginavam estar fazendo escola para uma geração de novos atores, bailarinos e cantores que dariam vida aos musicais mais importantes de todos os tempos. Com orçamentos astronômicos nesta nova fase – uma produção pode custar algo em torno de R$ 12 milhões –, criou-se uma prática por aqui em que tudo é exuberante e magnífico, sem deixar nada a desejar às produções de Nova York e Londres. E é de lá que está vindo a maior parte dos espetáculos para a temporada 2012, com destaque para A família Addams, Priscilla – Rainha do deserto e A cor púrpura. 
 
A família mais horripilante e engraçada de todos os tempos abre, neste mês, as portas do Teatro Abril, em São Paulo. Depois de uma temporada de sucesso em Nova York, com mais de US$ 64 milhões de faturamento, as histórias do lendário cartunista Charles Addams buscam seus números por aqui. No musical, Marisa Orth e Daniel Boaventura, nos papéis de Mortícia e Gomez, recebem a notícia de que sua filha, Wandinha, se apaixonou por um rapaz "comum" e que serão forçados a oferecer um jantar para a família dele.
 
Em Priscilla – Rainha do deserto, o trio de drag queens embarca em uma aventura a bordo de um ônibus, carinhosamente apelidado de Priscilla, pelo deserto australiano. Baseado no filme homônimo de 1994, o musical já foi visto por mais de 2 milhões de pessoas desde a estreia em 2006. As cidades de Melbourne, Toronto, Milão e Londres puderam apreciar a produção, que chega agora à capital paulistana, com direito, inclusive, ao famoso ônibus usado nos palcos londrinos e está avaliado em mais de US$1 milhão. "Os brasileiros vão se identificar com a história de Mitzi, Felícia e Bernadette", diz Almali Zraik, produtora-geral de Priscilla.  
 
A cor púrpura, também baseado no filme homônimo de 1985, será mais uma aposta para o ano. Com estreia prevista para abril no Rio de Janeiro, o espetáculo conta a história de Celie – personagem vivida no cinema por Whoopi Goldberg –, uma menina negra, abusada pelo próprio pai e doada para um homem que a trata como escrava. Para manter-se lúcida, ela escreve cartas, primeiro para Deus e depois para a sua irmã. No musical, a protagonista será interpretada pela cantora Vanessa Jackson, vencedora do reality show Fama, em 2002, da Rede Globo. Outra personagem marcante é Sofia, vivida nas telas por Oprah Winfrey, cujo papel lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor atriz coadjuvante. De acordo com Ricco Antony, produtor de A cor púrpura, o nome da atriz que fará o papel que foi de Oprah é mantido em segredo. Ele só será revelado na estreia. Mas garante que "é uma grande surpresa". 
 
Indústria de novos talentos
 
A abertura desse tipo de mercado só foi possível porque houve uma grande procura dos espectadores e dos patrocinadores, que apostaram nesse novo nicho de entretenimento, e pelas leis de incentivo. Com isso, São Paulo e Rio de Janeiro se tornaram espelhos de produções que, após temporadas de sucesso em Nova York e Londres, partem para o Brasil.
 
Em alguns casos, os espetáculos ainda fazem uma parada de curtíssima temporada em outras capitais, como Porto Alegre e Curitiba. Foi o caso de Os produtores (2008), com Juliana Paes, Vladimir Brichta e Miguel Falabella, em apresentações de apenas uma semana. No entanto, o número de musicais que consegue sair da ponte aérea é bem pequeno. Almali aponta a questão financeira como o principal empecilho. Com experiência internacional e anos de carreira, a produtora já levou os musicais O fantasma da ópera (2009) e A bela e a fera (2010) para Buenos Aires, depois da passagem pelo Brasil, e acredita que os custos são muito altos para tão pouco tempo de apresentação. "Um espetáculo do porte do Priscilla, por exemplo, para se pagar, tem que ficar em cartaz, no mínimo, três meses, com seis apresentações por semana".
 
 Se as oportunidades de trabalho para os atores cresceram, as funções nos backstages aumentaram na mesma proporção. "Houve a profissionalização de várias funções, desde os stage managers, uma espécie de gerente de palco, até a equipe responsável pela parte funcional do teatro, a equipe do cenário, entre outras, mão de obra que antes era bem escassa e precária", declara Floriano Nogueira, diretor residente de Hair, musical que ganhou os palcos paulistanos em janeiro último e permanece em cartaz.
 
Outras funcionalidades, antes mesmo de as cortinas se abrirem, também estão em alta no atual cenário da indústria dos musicais. Dentre elas, diretor e coreógrafo residentes, que participam desde as audições até a montagem final. "Temos que manter fielmente a qualidade deixada pela equipe criativa original, que muitas vezes vem de outros países", finaliza Nogueira. 
 
Seja para as atividades atrás das cortinas, seja para interpretar no palco, Nogueira é categórico em que a preparação do profissional é fundamental para o bom desempenho. E isso Kiara Sasso tem de sobra. Atualmente em cartaz em Hair, no qual interpreta a hippie grávida Jeanie, a cantora e atriz já esteve envolvida em papéis de grande destaque, nas principais produções vindas para o Brasil. Ela foi Christine, em O fantasma da ópera; a Bela, em A bela e a fera; e Donna, em Mamma Mia!. 
 
"Hair é a terceira peça que eu emendo. Fiz O médico e o monstro ao mesmo tempo que ensaiava o Mamma Mia!. Durante a temporada do Mamma Mia!, já estava ensaiando de novo, só que para o Hair", conta.
 
 Enquanto vive essa rotina de ensaios e apresentações, a atriz se entrega à personagem e vive só para o musical. "É muito trabalhoso, mas adoro o que faço. Quando entramos em cartaz, posso começar a pensar em vida fora do teatro. Em breve voltarei para a academia, aulas de canto e reencontrarei meus amigos, terei uma vida social", brinca.
 
Alma de fantasma
 
O musical mais visto de todos os tempos no mundo todo, inclusive aqui, é O fantasma da ópera (2005). Só para ter uma ideia, ele está há mais de 15 anos em cartaz em Nova York. Em solo brasileiro, a responsabilidade por protagonizar o fantasma coube ao barítono brasileiro Saulo Vasconcelos. Porém, antes da estreia no país, o ator já tinha feito o personagem na versão mexicana, em 1999. "Aprendi o idioma enquanto ensaiava para a peça", argumenta Vasconcelos. Quando chegou para a versão brasileira, o ator tinha todas as falas na ponta da língua. Mas, mesmo após mil apresentações, ele conta que a tensão era muito grande. Atualmente, está no musical Priscilla – Rainha do deserto como o mecânico Bob, que se apaixona por Bernadette, uma das drag queens. 
 
Além dessas estreias, há ainda outros espetáculos em vista. Rio de Janeiro e São Paulo se revezam para receber esse turbilhão cultural. Um violinista no telhado, com participação de José Mayer no elenco, já passou pelo Rio e chega a São Paulo ainda neste mês. Outro espetáculo também em cartaz no Rio de Janeiro é Xanadu, com a participação de Sidney Magal. O musical ganhou as manchetes no fim de janeiro devido ao acidente envolvendo os atores Thiago Fragoso e Danielle Winits. O cabo que os sustentava no ar em alguns momentos da peça se rompeu, fazendo-os despencar de uma altura de quase cinco metros. Xanadu já voltou aos tablados cariocas, mas com o ator Danilo Timm no lugar de Fragoso, que quebrou cinco costelas. 
 

O número crescente de musicais prova que as portas estão cada vez mais abertas para os sucessos da Broadway. E, quem sabe, outras capitais do país também possam se tornar pit stops obrigatórios. Pela torcida, eles já têm público garantido.



Revista da Cultura

quarta-feira, 7 de março de 2012

Os números da superprodução "Priscilla, A Rainha do Deserto"

Duzentas perucas, 30 mil lâmpadas de LED, 23 toneladas de cenários e 500 figurinos são alguns dos números superlativos do musical Priscilla, A Rainha do Deserto, que estreia dia 17 no Teatro Bradesco, em São Paulo. Um ano depois de estrear na Broadway, o musical australiano, adaptação do filme que virou ícone entre os gays, já rodou o mundo contando a história das drag queens Mitzi, Felicia e Bernadette. Clássicos da cultura musical LGBT como It’s Raining Men e I Will Survive, claro, estão no set list.
O elenco conta com Ruben Gabira, Luciano Andrey, André Torquato, Saulo Vasconcelos, Simone Gutierrez, Andrezza Massei e grande elenco que estreiam dia 17 de março no teatro Bradesco. Ingressos na bilheteria do teatro ou pelo site da ingresso rápido.
 
 
 

domingo, 4 de março de 2012

‘Priscilla’ traz surpresa vibrante para o público brasileiro

O público brasileiro de musicais já está habituado a ouvir os hits estrangeiros cantados em português. O musical Mamma Mia! (São Paulo, 2011), por exemplo, era costurado por sucessos pop do grupo ABBA, velhos conhecidos das paradas de sucesso muito tempo antes de chegarem ao palco do Teatro Abril. Mesmo assim, a opção pela tradução foi feita para que o público entendesse as canções como parte da história.

Já na montagem de New York, New York (São Paulo, 2011), que apresentava grandes clássicos da Era do Jazz, o diretor José Possi Neto optou por manter as letras originais em inglês e colocar legendas, por acreditar que as canções ficariam descaracterizadas se fossem traduzidas para o português. A nova produção musical Priscilla, Rainha do Deserto, que estreia em março em São Paulo, vai seguir a mesma linha e apresentar as suas pérolas dançantes na versão original, em inglês. Canções emblemáticas da disco music, como It’s Raining Men, I Say A Little Prayer, I Love the NightLife, Like a Virgin, Material Girl e I Will Survive, fazem parte do repertório do show e não devem ganhar versões na nossa língua.

No entanto, (alerta de spoiler!) a produção brasileira deixou escapar que tem uma surpresinha para o público que for assistir a Priscilla em São Paulo: a canção Dancin’Days, de Nelson Motta, foi incluída no espetáculo! Pra quem não lembra, este hit ficou famoso na voz do grupo As Frenéticas no fim dos anos setenta (Abra suas asas, solte suas feras…). A música vai aparecer no final do show, durante os agradecimentos. Uma maneira carinhosa de homenagear o Brasil e sua música tão vibrante!

sábado, 3 de março de 2012

Almanaque acompanha montagem de ‘Priscila, Rainha do Deserto’ em SP

O programa deste sábado (3) vai mostrar os bastidores da superprodução do musical que estreia esse mês em São Paulo. Não perca! Sábado, às 0h05.

O ônibus colorido conhecido como ‘Priscilla’ estacionou em São Paulo. O musical "Priscilla, Rainha do Deserto" estreia este mês com uma superprodução e o Almanaque acompanhou toda a montagem deste espetáculo. O programa vai ao ar no dia 3 de março . O espetáculo está simultaneamente em cartaz em Nova York e Londres.

A comédia dramática e musical fala de superação, de recomeço. Uma história que serve a todos nós. Das telas para o teatro. Em 2006, o filme virou musical. Foi sucesso na Austrália, Europa e em Nova Iorque. Agora desembarca no Brasil com, pelo menos, oito containeres de equipamentos e roupas.
O Almanaque acompanhou tudo, desde o começo! Os bastidores da montagem, os ensaios de voz, as provas de figurino. Uma produção milionária. Só o ônibus custou um US$1,5 milhão. Dinheiro bem gasto! Afinal, ele é mais do que um objeto cênico, é um personagem. Só mesmo Priscilla seria capaz de transportar a sensação de um filme off road, para o palco imóvel do teatro.
O ônibus pesa oito toneladas! Para colocá-lo em cena o palco foi reforçado. Trabalho de, pelo menos, três semanas e para uma equipe grande de, no mínimo, 50 pessoas. E muita gente veio de fora para acompanhar o projeto no Brasil.

O elenco brasileiro conta com 27 atores, cantores, 20 ajudantes de palco, 16 pessoas para cuidar do figurino, e sete só para preparar as perucas. Quem assina a direção artística da versão brasileira é o maestro Miguel Briamonte.

Além de interpretar o personagem, cada ator funciona como um instrumento. Por isso, o diretor musical da peça faz o papel do maestro. Em Priscilla, o comandante é o premiado compositor australiano Stephen Spud Murphy.

Não perca! o programa vai ar de sábado (3) para domingo à 0h05!

sexta-feira, 2 de março de 2012

Um pequeno resumo do processo de aprendizado de um musical

 
Lembrando que nem todos os musicais seguem essa linha.
 
O aprendizado de um musical se divide em três partes mais ou menos previsíveis. Canto, Dança ou sequência de movimentos (que é como se fosse um coreografia muito simples. Ex.: Cenas das barricadas em Les Misérables, cenas da aldeia de A Bela e a Fera, sequência de cenas que se passam na embaixada americana em Miss Saigon) e Interpretação. E essas três partes podem ser divididas entre 6 e 8 semanas de ensaios.
 
Na primeira semana pode-se dizer que o ator permanece "sentado". São dispostas cadeiras com estantes para partituras ou letras de música pelo salão de ensaios. Ao contrário do que se pensa, ler música não é um requisito que se exija do ator, embora seja importante que o candidato tenha pelo menos um mínimo de musicalidade - visto que em alguns testes se pede, por exemplo, que o artista aprenda uma das vozes de uma sequência coral. 
 
Nessa primeira semana é importante que o ator memorize o mais rápido possível aquilo que foi passado no dia anterior. Geralmente, usam-se gravadores na hora da passagem de vozes individuais ou solos, para facilitar o estudo em casa.
 
Na segunda semana, geralmente, os artistas "levantam". Começam ensaios de coreografias e cenas, dependendo de que  núcleo os atores fazem parte no espetáculo. Ex.: Em A Bela e a Fera havia dois núcleos: Aldeia e Castelo. Geralmente, aquelas que faziam parte do "núcleo Castelo" aprendiam as cenas e os que faziam parte do "núcleo Aldeia" aprendiam sequências de movimento e coreografias. 
 
O processo onde o ator "levanta" é a oportunidade que ele tem de juntar o canto ou texto com o movimento, seja ele em forma de marcação de cena ou de coreografias. Por isso, existe a necessidade de que se aprenda o máximo possível da primeira semana. 
 
Quanto mais o artista praticar suas tarefas, em casa ou em seu tempo livre no salão de ensaios, mais seguro se sentirá. Num primeiro momento, é comum a sensação de que é impossível realizar essa ou aquela sequência. Mas lembre-se que um movimento novo é cansativo porque o corpo - ou melhor - os músculos do "atleta" não estão acostumados nem fortalecidos o suficiente. Isso eleva os batimentos cardíacos e gera falta de ar, etc. Esse cansaço nos impede inclusive de lembrar um texto ou cantar de forma adequada. Há de se insistir até que o corpo se acostume.
 
Depois de algumas semanas no salão de ensaios, são retirados os espelhos pra que as coreografias sejam executadas à perfeição sem que seja necessário o auxílio dos mesmos.
 
Diariamente, são feitas observações à respeito do desempenho do ator no espetáculo: dicção, precisão de marcações, observações musicais, etc. Esse tipo de feedback dos diretores pros artistas em cena, é conhecido por "notas". E será um processo utilizado em toda a temporada.
 
Finalizados os ensaios no salão - geralmente depois de 4 ou 5 semanas - é chegado o momento de ir ao teatro. Nessa etapa são acrescentados todos os elementos técnicos: Luz, som, cenografia, contra-regragem, perucas, maquiagem, figurinos, etc. Geralmente, esse período pode ser extremamente lento e cansativo, porém crucial para a "finalização" do espetáculo para o público. E por ser lento e cansativo, o ator pode sentir uma sensação de retrocesso na qualidade do trabalho realizado até ali. Por isso, convém estar o mais concentrado possível nessa etapa, para minimizar as perdas.
 
A adição de novos elementos (peruca e/ou figurinos pesados e/ou maquiagem pesada) exige um novo processo ao qual o corpo do ator deve se acostumar. Só pra citar alguns exemplos: figurinos dos objetos do castelo em A Bela e a Fera. Maquiagem da Fera e Fantasma, etc).
 
Espero que esse texto ajude a entender um pouco mais o universo dos musicais.
 
Até a próxima!
 
Saulo Vasconcelos