Retornar ao teatro Abril para muitos é simplesmente ir ao teatro,mas pra muitos outros, inclusive pra mim,não é só isso.

Quando se tem um musical do coração onde este foi encenado ali,seja ele Lês Misérables,A Bela e a Fera ou Miss Saigon, enfim, quando foi ali naquele imponente teatro que se despertou essa verdadeira paixão por teatro musical,retornar ao Abril é sempre uma nostalgia.
Quando vamos,olhamos com carinho aqueles lustres, aquele piso, aquelas escadas e nos lembramos sempre da primeira vez que os vimos, sem sabermos, até então, o que nos esperava.
No meu caso fui num certo mês de outubro a contra-gosto ver O Fantasma da Ópera onde ao sair daquele teatro eu nunca mais seria a mesma e nunca mais falaria dos musicais de forma tão preconceituosa.
Preconceito este que anos antes em 2002 me fez desdenhar dos belos cartazes do musical A Bela e a Fera onde ao passar em frente eu disse com desprezo que era coisa pra criança.
Ledo engano que só percebi anos mais tarde ao ver vídeos do musical B&F pelo Youtube, arrependendo-me muito dessa atitude. Acreditem, vê-los gelei, paralisei com um frio que correu por minha espinha e disse: Meu Deus,o que foi que eu fiz?!
Ou melhor, não fiz! Tive a chance de ver e na época não vi.
Tem um ditado que diz assim:nós nos arrependemos mais pelo que não fazemos do que pelo que fazemos,acreditem essa é a mais pura verdade.
Como dizia a Fera: “se eu soubesse bem lá atrás,o quanto eu fui cruel demais.”
“O destino vem cobrar seu preço.”
Sim ele cobra e cobra caro,cobra com juros,pois desde então,uma mágoa em meu coração,uma saudade de uma época que não vivi.
Mas fazer o que?
Máquinas do tempo não existem,a realidade é essa e eu só tinha que aceitar.
Porém,há momentos mágicos na vida da gente que acontecem quando sonhos tornam-se realidade.
Nunca imaginei que Saulo daria vida novamente a sua Fera.
Nunca imaginei que o futuro me traria o passado de volta.
Um presente precioso do destino colocado cuidadosamente em meus braços,contrariando a regra de que cavalo selado não passa duas vezes ou de que um raio não vota a cair no mesmo lugar.
Destino este que por um puro capricho da maldade me coloca bem longe em Ushuaia, na patagônia Argentina simplesmente a última cidade do planeta (literalmente no fim do mundo)justo no dia da estréia desse Fera,sem contar que não me devolve a Bela dessa Fera!
Surpresa com o que, Anne?!
Pois é,o destino não seria assim tão bonzinho comigo,só pelo fato de eu ter me redimido.
Mas hoje,eis me então de volta ao Abril,numa mesma primavera de outubro pra finalmente abrir meu presente neste dia 29.
Eu,outra vez ao templo onde a musica e´musa e deusa,respirando sua atmosfera nostálgica,sempre um bálsamo pro meu ser.
Mas havia algo de diferente, algo além nessa atmosfera, algo muito especial, algo mágico que palavras não descrevem, apenas o coração sente.
Não foi difícil saber afinal o que eu sentia. Encontrei rapidamente a resposta. Eu sentia a presença do SENHOR DO ABRIL ali. Impressionante como sinto o Abril diferente quando Anjos da Música voltam a pisar naquele palco.
Saulo Vasconcelos está absolutamente brilhante em sua atuação.
Mais do que vestir aquele figurino, Saulo,vestiu a alma da Fera, incorporou a personagem de tal forma que com sua voz vigorosa de Fera(nos momentos de fúria),
nos amedronta tanto que dá-nos a impressão de que ela vai nos atacar na platéia de tão real.
Em contra partida, em outros momentos transforma-se no mais frágil dos seres.
Nos momentos cômicos, não vi uma Fera infantilizada e sim ingênua bem adequada ao que se propõe na trama.
Seu solo foi de uma emoção sem igual. Quando o cenário se aproxima e começa a girar, fui aos prantos,voz linda, impecável.
Quanta dor ao permitir que Bela partir-se,pude sentir seu coração aos pedaços.
Essa versatilidade de Saulo é de impressionar, ele faz parecer fácil o que na verdade não é.
A valsa, um capítulo a parte,a Fera começa toda quadrada com muita dificuldade nos passos, mas com boa vontade em aprender e assim que vem a confiança sai pro centro do palco numa leveza fabulosa,linda dança.
Qual seria o segredo de se saber transitar entre a raiva e a amabilidade, alternado-se tão rapidamente entre esses dois extremos com tamanha maestria?
Estudo?
Técnica?
Prática?
Dom?
Sim, também.
Mas, em minha opinião, ressalto principalmente que sua versatilidade só é conseguida empregando-se o coração.
Parabéns por sua Fera, Saulo Vasconcelos.
Parabéns por estar de volta ao Abril.
E o motivo pelo qual sua Fera foi TÃO REAL pra mim, foi por isso, porque pude sentir seu coração emprestado nela.
Saí do Abril muito feliz e tão encantada quanto a primeira vez que o vi como O Fantasma da Ópera numa primavera de outono.
Finalizo dizendo: quem já o viu como Fera,voltem mais uma vez ao Abril, porque depois, não haverá retorno mais.
Quem ainda não o viu, vão querer fazer como eu fiz em 2002?
Então corre, porque é a última semana e cavalo selado não passa três vezes.
(Annelise V. Garcia)